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sábado, 9 de setembro de 2017

A Mulher de Branco / The Woman in White (1948)

“A Mulher de Branco” me lembra de vários filmes da década de 1940. Pode ser um tema em comum, um personagem, uma situação, um cenário. Como eu fui capaz de fazer tantas conexões, foi com curiosidade e surpresa que descobri que a história que deu origem ao filme foi uma das primeiras do gênero investigativo.

“The Woman in White” reminds me of many films made in the 1940s. It may be a common theme, a character, a situation, a set. Since I was able to make so many connections, it was curious to know that the original story was a pioneer in the investigation genre.
Assim como em “O Retrato de Jennie” (1948), “A Mulher de Branco” apresenta uma mulher misteriosa que é vista por um pintor. Ela é primeiro uma peça de um mistério, e depois uma fonte de inspiração. A mulher misteriosa aparece perto da floresta e encontra o professor de pintura Walter Hartright (Gig Young), que acaba de chegar à cidade. Ela desaparece quando surge uma carruagem na estrada, e diz algumas coisas estranhas sobre como ela finge viver na casa em que o senhor Hartright está indo trabalhar.

Like in “Portrait of Jennie” (1948), “The Woman in White” has a mysterious woman that appears for a painter. She is first the piece of a mystery, and second a source of inspiration. The mysterious woman appears in the woods and meets the drawing tutor Walter Hartright (Gig Young), who has just arrived in town. She vanishes when a carriage comes near, and says some odd things about pretending to live in the house Mr Hartright is going to work in.
Assim como em “Silêncio nas Trevas” (1946), o dono da propriedade é inválido. Aqui ele é o senhor Frederick Fairlie (John Abbott), um homem com ataques nervosos que se sente zonzo quando alguém fala alto perto dele. Fairlie serve mais como alívio cômico. Junto com ele está sempre seu criado, Louis, interpretado por Curtis Bois, um ator alemão cuja carreira no cinema durou 82 anos.

Like in “The Spiral Staircase” (1946), the owner of the house is ill and invalid. Here it is Mr Frederick Fairlie (John Abbott), a man with weak nerves who feels dizzy if someone talks too loud. Mr Fairlie comes across as comic relief. With him there is always his companion, Louis, played by Curtis Bois, a German actor famous for having a career spanning 82 years.
Assim como em “O Fantasma Apaixonado” (1947), há um clima sobrenatural desde as primeiras cenas. O senhor Hartright é contratado para ser professor de pintura da sobrinha do senhor Fairlie, Laura (Eleanot Parker), uma moça incrivelmente parecida com a mulher de branco que surgiu naquela noite.

Like in “The Ghost and Mrs Muir” (1947), there is a supernatural feeling since the beginning. Mr Hartright was hired to give drawing lessons to Mr Fairlie's niece, Laura (Eleanor Parker), who has a striking resemblance with the woman in white he saw that night.
Mas o que acontece na propriedade Limmeridge naquela metade do século XIX? O senhor Fairlie está muito doente, e hospeda agora em sua casa o conde Fosco (Sydney Greenstreet),cujo comportamento é duvidoso. Quem cuida da casa é a prima de Laura, Marian (Alix Smith), uma moça séria que gosta do senhor Hartright, mas não acredita quando ele conta a história da mulher de branco. E a própria Laura também gosta do senhor Hartright, mas está noiva de Sir Percival (John Emery).

But what happens in the Limmeridge house in that middle of the 19th  century? Mr Fairlie is too ill, and is currently receiving the visit of Count Fosco (Sydney Greenstreet), who has a suspicious behavior. The person who takes care of the house is Laura's cousin, Marian (Alexis Smith), a practical girl who likes Mr Hartright, but can't believe his story about the woman in white. And Laura herself also likes Mr Hartright, but she is engaged to Sir Percival (John Emery).
O que se segue é chantagem, gaslighting, intriga e algo que pode ser tanto envenenamento – como em “Interlúdio” (1946) – ou hipnose. Acrescentamos à propriedade Limmeridge a presença aparentemente inofensiva de Agnes Moorehead e o que temos é um bom mistério de época – com Sydney Greenstreet em um de seus melhores momentos.

What follows is blackmail, gaslighting, intrigue, and something that may be poisoning – like in “Notorious” (1946) – or hypnotizing. We add to the Limmeridge house the apparently inoffensive presence of Agnes Moorehead and what we have is a nice period mystery – with Sydney Greenstreet in one of his best moments.
Wilkie Collins escreveu o livro em 1860. “A Mulher de Branco” era, assim como “Werther”, um romance epistolar, no qual a história é contada através de cartas. O livro tem mais de 600 páginas e foi um dos pioneiros do gênero investigativo. Mesmo Hrtright não sendo detetive, ele usa o pensamento lógico e a espionagem para juntar as peças do quebra-cabeças – com uma ajudinha de Marian. O livro foi adaptado para o cinema diversas vezes.

Wilkie Collins wrote the book in 1860. “The Woman in White” was, like “Werther”, an epistolary book, in which the story is told through letters. The book had more than 600 pages and was one of the pioneers of the detective fiction. Although Hartright is no detective, he employs logical thinking and snooping in order to put the pieces of the puzzle together – with a little help from Marian. The book was adapted to the screen several times.
Se considerarmos apenas o uso das sombras e uma cena em particular com um candelabro, podemos chamar este filme de um noir de época. A trilha composta por Max Steiner é fantástica, como sempre. E eu não posso elogiar o cenário o suficiente. A atmosfera do filme é sobrenatural sem ser nebulosa, e isto é um ponto positivo. Se há pontos negativos, eles vieram da história original, que perde força e fica estranha em certo momento, quando se escolhe uma saída fácil.

If we consider only the use of shadows and one particular scene with a chandelier, we could call this film a period noir. The score by Max Steiner is fantastic, as always. And I can't say enough good things about the set decoration. The atmosphere of the movie is supernatural without being foggy, and that’s quite an accomplishment. If there are let downs, they are in the original story, that loses power and becomes odd at a certain point, choosing an easy way out.
“A Mulher de Branco” é um dos 12 filmes que pretendo ver em 2017. Não lembro quem recomendou a película para mim, mas acredito que tenha sido a Nitrate Diva no Twitter. De qualquer forma, eu gostei da recomendação e agora também recomendo “A Mulher de Branco” para qualquer pessoa que goste de cinematografia de primeira e não se importe com algumas falhas no roteiro.

“The Woman in White” is one of the 12 new-to-me movies I intend to watch in 2017. I don’t remember who first recommended it to me, but I think it was Nitrate Diva on Twitter. Anyway, whoever you were, I appreciated the recommendation and I’ll also recommend “The Woman in White” to anyone who likes great cinematography and doesn’t care about a few plot holes.


This is my contribution to the Colours Blogathon, hosted by Thoughts All Sorts.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Os Olhos Sem Rosto / Eyes Without a Face / Les Yeux san visage (1960)

ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS

THIS ARTICLE HAS SPOILERS
Os créditos surgem acompanhados por uma música sinistra de parque de diversões. A tela está quase preta, mas podemos sentir que estamos nos movendo pelas árvores que passam – seríamos nós passageiros em uma carruagem fantasma? Não, nós estamos apenas no carro de uma mulher que carrega um cadáver no banco de trás. Do cadáver, ela quer apenas o rosto. O filme começou há cinco minutos e já sentimos vários arrepios na espinha.

The credits roll accompanied by a sinister merry-go-round music. The screen is nearly black, but we can sense we’re moving by the trees passing by us – maybe we’re passengers in a phantom carriage? No, we’re riding along a woman who carries a lifeless body in her car. From the body, she wants just the face. We’re five minutes into the film and already have chills down our spines.
Agora vemos um cientista dando uma palestra sobre como evitar a rejeição em transplantes de órgãos. Assim como na palestra que abre “O Médico e o Monstro”, de 1931, um cientista fala abertamente na frente de um grupo de pessoas sobre os próximos passos de sua perigosa próxima experiência.

Now we have a scientist giving a lecture about how to avoid rejection in organ transplantations. Just like in the opening lecture from 1931’s “Dr Jekyll and Mr Hide”, a scientist discusses in front a group of people the steps of his next dangerous experiment.
O cientista é o Dr Génessier (Pierre Brasseur), cuja filha desapareceu recentemente. Ela foi vítima de um acidente de carro e ficou com o rosto desfigurado. Ela fugiu da clínica onde recebia tratamento. Só que nada disso aconteceu – o pai a tirou da clínica e começou a fazer experiências com transplantes faciais nela.

The scientist is Dr Génessier (Pierre Brasseur), whose daughter disappeared recently. She was a victim in a car crash and her face was left disfigured. She ran away from the clinic where she was been treated. Except she didn’t – her father took her away and started experimenting with facial transplantation surgery on her.
A filha, Christiane (Edith Scob) não está nada feliz. Ela vive trancada em uma luxuosa mansão, e precisa usar uma máscara para cobrir suas feridas. Ela passa por diversas cirurgias perigosas e complexas, mas seu corpo rejeita os novos rostos. E de onde vêm os rostos? Bem, de jovens mulheres raptadas e mortas pelo Dr Génessier e sua assistente Louise (Alida Valli), que, aliás, era a mulher dirigindo o carro na primeira cena. Louise oferece um quarto para uma moça alugar e lá vai – começa o corte.

The daughter, Christiane (Edith Scob) is not happy at all. She lives locked in a lavish mansion, wearing an ugly mask to cover her wounds. She goes through several dangerous and complex surgeries, but her body keeps rejecting the new faces. And where do the faces come from? Well, from young women kidnapped and killed by Dr. Génessier and his assistant Louise (Alida Valli), who, by the way, was the woman driving the car in the opening scene. Louise offers the girl a room to rent, and there they go – cutting her mercilessly.
Por falar em corte, preciso dar um alerta de gatilho em potencial: há uma sequência altamente gráfica envolvendo uma cirurgia no meio do filme. Primeiro, Christiane tira a máscara e a mais nova vítima, Edna (Juliette Mayniel) vê o rosto dela sem estar coberto. É uma revelação ao estilo “Fantasma da Ópera”, com uma imagem desfocada que aos poucos revela um rosto destruído. Logo após este momento, acontece a cirurgia. É o básico da cirurgia plástica dos anos 60: o Dr Génessier marca o local com um lápis e ali faz o corte, de onde sai muito sangue – falso, obviamente. Não há problema em se sentir enojado e fechar os olhos – ou ficar com as mãos no seu próprio rosto para ter certeza de que ele ainda está lá, como eu fiz enquanto via.

Since we’re talking about cutting, a trigger warning must be given: there is a very graphic surgery scene in the middle of the movie. First, Christiane takes off her mask and the newest victim, Edna (Juliette Mayniel) sees her face without a mask. It’s a “Phantom of the Opera”-style revelation, with an unfocused image that slowly reveals a destroyed face. Right after this moment, the surgery happens. It’s 1960’s plastic surgery 101: Dr Génessier marks the place with a pencil, then comes the cutting and the fake blood. It’s OK to be disgusted and to look away – or to keep touching your face to make sure it’s still there, like I did while watching.
Como poderíamos classificar Génessier enquanto cientista: bom, maluco ou solitário? De certa maneira ele é bom, porque quer ver a filha feliz e perfeita novamente. Mas para conseguir isso ele se torna um cientista maluco e mata mulheres para pegar os rostos delas e transplantar em Christiane. Mas acima de tudo, eu acredito que ele é solitário. Ele perdeu a esposa quatro anos antes do acidente com Christiane, e agora a filha é tudo para ele. Ele se sente responsável pelo acidente e quer consertar as coisas – mesmo que para isso ele deixe um rastro de sangue e destrua muitas outras vidas. Dito isso, podemos sentir a solidão e o vazio de sua alma em seu rosto sem expressão – porque mesmo sem um rosto, Christiane é mais expressiva que o pai, e usa apenas os olhos para isso.

How would we classify Génessier as a scientist: good, mad or lonely? In a sense he is good, because he wants to see his daughter happy and perfect again. But in order to do this he goes mad and kills women to get their faces to transplant in Christiane. But above all, I believe he is lonely. He lost his wife four years before Christiane’s accident, and now the girl is everything to him. He feels responsible for the accident and wants to fix things – even if this leaves blood everywhere and destroys many other lives. That being said, we can feel the loneliness and the emptiness of his soul by his face without an expression – yes, because even without her face, Christiane is more expressive with her eyes than his father with his full face.
Todos os atores no filme estão muito bem. Esta foi a primeira vez que eu vi Pierre Brasseur em um filme, mas ele esteve em outras produções famosas que eu ainda pretendo ver. Alida Valli é linda e assustadora, e Edith Scob – que trabalha no cinema até hoje – é simplesmente maravilhosa. O diretor Georges Franju foi muito feliz na escolha da trilha sonora – ou na escolha de não ter trilha sonora em algumas sequências, como na da cirurgia. Ao contrário da cena do chuveiro de “Psicose”, nós não podemos imaginar esta cena acompanhada de nenhuma música – o que simplesmente arruinaria o clima de tensão.

Everybody in this movie is extremely good. This was the first time I saw Pierre Brasseur in a movie, but he made many other famous films I have yet to see. Alida Valli is gorgeous and scary, and Edith Scob – who is still making movies nowadays – is simply wonderful. Director Georges Franju is very successful in the choice of the music – or the choice of not having music in some sequences, like the surgery. Unlike “Psycho”’s shower scene, we can’t imagine this scene accompanied by any song – it’d simply ruin the tense effect.
“Os Olhos sem Rosto” foi, assim como muitos filmes revolucionários, mal recebido pelo público e pelos ditos “críticos”. A cena da cirurgia foi censurada em diversos mercados estrangeiros, e causou frisson nos países em que foi exibida sem cortes. Como filme de terror, “Os Olhos sem Rosto” é um os melhores do gênero. Mas como o próprio Franju considerava que este era um filme sobre angústia, devemos dizer: “Os Olhos sem Rosto” é o melhor filme sobre angústia já feito.

“Eyes Without a Face” was, like many groundbreaking films, received badly by the public and the so-called “critics”. The surgery scene was often censored in foreign markets, and caused frisson wherever it was fully exhibited. As a horror movie, “Eyes Without a Face” is one of the best of the genre. But since Franju himself considered it an anguish movie, we must say: “Eyes Without a Face” is the best anguish movie ever made.


This is my contribution to the Movie Scientist blogathon, hosted by Christina at Christina Wehner and Ruth at Silver Screenings

sábado, 2 de setembro de 2017

Capitulou Sorrindo / The Glass Key (1942)

Recortes da vida. Quando eu era pequena e via qualquer filme 'normal' – ou seja, qualquer um que não fosse de animação – eu ficava fascinada porque compreendia os filmes como sendo recortes da vida. Aqueles personagens estão ali, em suas próprias histórias, e nós vemos apenas um pedaço delas. Nós precisamos seguir as pistas e ligar os pontos e descobrir quais são as ligações e motivações dos personagens. Para mim, era como ser um detetive em frente a uma tela. Com o tempo eu descobri que nem todos os filmes são recortes da vida. Mas alguns deles ainda podem ser descritos desta forma, como “Capitulou Sorrindo”, péssimo título dado no Brasil para “The Glass Key” (1942).

Slices of life. When I was little and watched any 'regular' movie – aka not an animated one – I was fascinated because I understood movies as slices of life. Those characters are there, in their own story, and you only get a piece of it. You must connect the clues and the dots and find out the characters' liaisons and motivations. It was like being a detective in front of the screen. With time I learned that not all movies are slices of life. But some of them can still be described this way, like “The Glass Key” (1942).
Todos nós sabemos que há muita coisa em jogo em uma eleição – e em 1942 isso já era assim. Se tornar governador, fazer reformas, ser apoiado por um jornal e criticado por outro, até mesmo manipular a vida familiar e amorosa: tudo isso entra na disputa das eleições. É por isso que Paul Madvig (Brian Donlevy) e Ralph Henry (Moroni Olsen0) estão ligados de várias maneiras: eles são aliados nas eleições estaduais. Madvig quer se casar com a filha de Henry, Janet (Veronica Lake). A irmã de Madvig, Opal (Bonita Granville), ama o filho de Henry, Taylor (Richard Denning), e quer ajudá-lo a pagar as dívidas de jogo – algo que o irmão dela não quer. No meio de tudo isso está Ed Beaumont (Alan Ladd), sócio e melhor amigo de Madvig, e responsável por resolver todos os problemas.

We all know that there is a lot involved in an election – and it was the same way in 1942. Becoming governor, having reforms, being supported by one newspaper and criticized by the other, even playing with family life and love life: everything enters the dispute. That's why Paul Madvig (Brian Donlevy) and Ralph Henry (Moroni Olsen) are connected in more than one way: they are allies in the estate elections. Madvig wants to marry Henry's daughter, Janet (Veronica Lake). Madvig's sister, Opal (Bonita Granville), loves Henry's son, Taylor (Richard Denning), and wants to help him pay his debts – what her brother disapproves. In the middle of all this there is Ed Beaumont (Alan Ladd), Madvig's parter / best friend and the one who must solve all troubles.
Ed é um personagem criado pela mente complexa de Dashiell Hammett, e podemos ver que Ed tem alguns traços em comum com a mais famosa criação de Hammett: Sam Spade. Tanto Sam quanto Ed são homens durões vivendo em um mundo cruel, ambos são cínicos, frios e escondem bem seus sentimentos. Assim, Alan Ladd atua como Humphrey Bogart, o ator que melhor interpretou Spade, e embora suas expressões sejam estoicas, podemos ler nos olhos deles os seus sentimentos. Àquela altura, Ladd estava há quase uma década em Hollywood, como extra, e no ano anterior a “Capitulou Sorrindo” ele inclusive interpretou um técnico de animação no filme da Disney “O Dragão Relutante”.

Ed is a character created by the complicated mind of Dashiell Hammett, and we can see that Ed shares some traits with Hammett's most famous creation: Sam Spade. Both Sam and Ed are tough men living in a more-than-tough world, they're cynical, cold and disguise their feelings well. By doing this, Alan Ladd works a lot like Bogart, the actor who played Spade the best, and although his expression is kind of stoic, we can read his feelings in his eyes. By that point, Ladd had been in Hollywood for nearly a decade, playing extras, and the year before “The Glass Key” he even appeared as an animator in the Disney movie “The Reluctant Dragon”!
Alan Ladd, 1941
Alan Ladd, 1942
Vamos falar sobre Veronica Lake: a maravilhosa loira baixinha com o penteado peek-a-boo é incrível, não? Ela tinha apenas 19 anos quando “Capitulou Sorrindo” foi filmado, e já mostrava seu talento como atriz. Os momentos em que ela e o personagem de Ed flertam são muito bem feitos, porque o flerte é muito sutil, mas a química é evidente. Este é o segundo filme que eles fizeram juntos.

Let's talk about Veronica Lake: the wonderful petite blonde with the peek-a-boo hair is amazing, isn't she? She was only 19 when “The Glass Key” was made, and already showed great acting skills. The moments in which she and Ladd's character flirt are very well done, because the flirting was very subtle, but we can see that they have great chemistry. This is the second film they did together.
“The Glass Key” foi adaptado pela primeira vez para os cinemas em 1935, com George Raft no papel de Ed. Como é o caso de outros trabalhos de Dashiell Hammett, a história era originalmente uma trama pesada sobre corrupção na política, mas se adaptou perfeitamente à narrativa do noir. O filme de 1935 não era noir, obviamente, mas a versão de 1942 é comumente citada em listas de filme noir. Temos nesta versão os ambientes cheios de sombra, o enquadramento em diagonal dos personagens e, acima de tudo, Ed como um protagonista moralmente ambíguo. Talvez, como em “À Beira do Abismo” (1946), “Capitulou Sorrindo” precise ser visto mais de uma vez para ser completamente apreciado. Afinal, se pudéssemos reviver um ‘recorte da vida’ várias vezes, seríamos capazes de perceber todos os detalhes e ter a experiência completa para sempre nas nossas mentes.

“The Glass Key” was first adapted into a film in 1935, and George Raft played the part of Ed. As it was the case with other works by Dashiell Hammett, the story was a hard-boiled tale of political corruption, but it fits perfectly the noir narrative. The 1935 movie was not a noir one, of course, but the 1942 version is often cited in noir lists. We have here the shadowy environments, the diagonal shots and, above all, Ed as a morally ambiguous leading man. Maybe, like “The Big Sleep” (1946), “The Glass Key” needs more than one viewing to be fully enjoyed. After all, if we could live a ‘slice of life’ again and again, we would be able to see all the details and have the whole experience forever in our minds.

This is my contribution to the Alan Ladd blogathon, hosted by Hamlette’s Soliloquy.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Europa '51 (1952)

Consciência social. Guerras. Esquerda contra direita. A boba e infantil vida burguesa. Suicídio infantil. Memórias de guerra. “Europa '51” trata de todos estes temas em seus primeiros trinta minutos. E já podemos sentir, por estes temas, que é um filme de Rossellini. E ele só melhora conforme avança a trama.

Social conscience. Strikes. Left vs right. The silly and childish life of the bourgeois. Child suicide. War memories. “Europa '51” touches all these themes in its first half an hour. And we can sense, by those themes, that we are watching a film by Rossellini. And it only gets better as the plot goes on.
É a morte do filho de Irene (Ingrid Bergman) que dá início à sua jornada. O menino se sentia negligenciado, por isso ele se joga de uma escada e se machuca. Quando ele morre depois de uma cirurgia no fêmur, Irene entra em choque – e nós podemos sentir o choque no olhar de Ingrid. Ela não grita, não chora, não perde a cabeça. Ela fica em choque. Só isso. E é também tudo isso.

It's the death of Irene's (Ingrid Bergman) son that starts her journey. The boy was feeling neglected, so he hurt himself by falling down the stairs. When he dies after a fêmur surgery, Irene is in shock – and we can see the shock in Ingrid's eyes. She doesn't scream, she doesn't cry, she doesn't lose her mind. She is in shock. It's only that. And it's also all that.
Enquanto se recupera, Irene se aproxima do primo de seu marido, Andrea (Ettore Giannini), um jornalista comunista. Andrea a convence a ajudar uma pobre família cujo filho precisa de um remédio caro para sobreviver. Andrea também empresta livros e jornais a Irene. A maneira como ela vê o mundo muda. Ela tenta ajudar os pobres de todas as maneiras. Ela até experimenta a noite de entretenimento dos pobres – ela vai ao cinema popular, em vez de ir ao teatro elitista.

While recovering Irene becomes closer of her husband's cousin Andrea (Ettore Giannini), a communist journalist. Andrea convinces her to help a poor family whose son needs an expensive medication to survive. Andrea also lends Irene books and newspapers. The way she sees the world changes. She tries to help poor peaople in any way she can. She even attends the poor people's entertainment night – she goes to the popular cinema, and not the elitist theater.
Irene passa a ser julgada pelas pessoas ao seu redor. Não pelas pessoas que ela ajuda, mas pelas pessoas de seu convívio – isto é, pessoas “respeitáveis”. Ela é uma figura semelhante a Cristo, e sofre nas mãos de ignorantes que dizem estar “seguindo a lei”, “protegendo a sociedade” e “fazendo isso pelo bem dela”. Se Jesus fosse uma mulher, ele provavelmente teria sofrido muito mais.

Irene is then judged by all people around her. Not by the people she is helping, but by the people she used to live among – that is, “respectable” people. She is a Christ-like figure, and suffers on the hands of the ignorants who claim to be “following the law”, “protecting society” and “doing it for her own good”. If Jesus was a woman, he might have suffered even more.
Mesmo tendo passado pelos horrores da guerra, Irene é agora uma mulher privilegiada. Seu novo comportamento é condenado por sua mãe, por seu marido George (Alexander Knox, que interpretou o presidente Woodrow Wilson em 1944) e seus amigos. Ela ajuda pessoas. Ela faz exatamente o que Jesus ou um santo fariam. Algum de nós faria o que ela faz? A maioria de nós gosta de pensar que sim, mas eu acredito que quase ninguém se comportaria como ela.

Even if she has suffered the horrors of war, Irene is now a privileged member of society. Her new behavior is disapproved by her mother, her husband George (Alexander Knox, who played president Woodrow Wilson in 1944) and her friends. She helps people. She does exactly what Jesus Christ would do, or a saint would do. Would any of us do what she does? Most of us like to think we would, but I believe almost nobody would behave like her.
Além da brilhante Bergman, outra presença no filme me deixa feliz: Giulietta Masina. Seu papel como uma pobre e trabalhadora mãe de seis crianças é pequeno, mas ela brilha em cada segundo na tela. Ela fala alto, é um pouco grossa, espontânea e temperamental. Ela não tem medo de falar a verdade sobre as coisas. Assim como em muitos de seus papéis coadjuvantes – como em “A Trapaça” (1955) – Giulietta é aqui inesquecível. Quer dizer, ela é tão inesquecível que eu estou 100% convencida de que a reconheci como extra em “Paisà”, de 1946, também dirigido por Rossellini.

Besides brilliant Bergman, another presence in this movie makes me happy: Giulietta Masina. Her role as a poor yet hard-working mother of six is a small one, but she shines in every second of it. She is loud, a bit rough, spontaneous and temperamental. She is not afraid of saying things the way they really are. As in many of her supporting roles – like in “Il Bidone” (1955) – here Giulietta is unforgettable. I mean, she is so unforgettable that I'm 100% sure that I recognized her in a cameo in 1946's “Paisà”, also directed by Rossellini.
Um filme como este nunca seria feito nos Estados Unidos, especialmente com as investigações anticomunistas acontecendo. E é simbólico ter Ingrid Bergman neste papel. Ela havia acabado de interpretar Joana D'Arc nos EUA quando conheceu Rossellini, engravidou e se tornou persona non grata em Hollywood. E aqui está ela, na Itália, interpretando uma verdadeira santa que é vítima de hipocrisia e julgamento. Eu gosto muito da Hollywood clássica, mas fico feliz por poder ver filmes de outras partes do mundo e que mostram perspectivas diferentes e exploram temas complexos.

A film like this one would never have been done in the US, especially with the HUAC investigations going on. And it's symbolic to have Ingrid in this role. She has just played Joan of Arc in the US when she met Rossellini, got pregnant and became persona non grata in Hollywood. And here she is, in Italy, playing a true saint who is the victim of hypocrisy and judgment. I really enjoy classic Hollywood, but I'm happy to be able to see films from other parts of the world to show us different perspectives and explore difficult themes.
É incrível como os temas deste filme refletem o que está acontecendo no mundo agora – um pouco nos EUA, e muito no Brasil. Sempre que uma pessoa acredita que todos os seres humanos têm os mesmos direitos e deveriam ganhar o suficiente para uma existência digna, esta pessoa é chamada de “liberal” / “social justice warrior” nos EUA ou “comunista” / “esquerdista” no Brasil.

It's incredible how the themes in this film mirror what is happening in the world now – a little in the US, a lot in Brazil. Whenever a person thinks all human beings deserve the same rights and should earn enough to live decent lives, this person s  called “liberal” / “social justice warrior” in the US or “communist” / “leftist” in Brazil.
Há uma cena em que Andrea e Irene conversam, e Andrea diz que o mundo será um paraíso quando os homens perceberem que o futuro precisa incluir progresso para todos. Infelizmente, eu vim do futuro para transmitir uma mensagem triste a Andrea: nós estamos cada vez mais longe do seu paraíso. E isso acontece porque pessoas como Irene são impedidas de fazer a diferença no mundo.

There is a scene in which Andrea and Irene are talking, and Andrea says that the world will be a paradise when men realize that the future needs to have progress for everyone. Unfortunately, I'm here from the future to deliver a sad message to Andrea: we're further and further from your paradise. And that's because people like Irene are prevented from making the difference in this world.


This is my contribution to the 3rd Wonderful Ingrid Bergman blogathon, hosted by Virginie at The Wonderful World of Cinema.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Os Seus, Os Meus, Os Nossos / Yours, Mine and Ours (1968)

Os anos 60 representaram uma nova era em Hollywood. A censura ia enfraquecendo, novos temas eram explorados – como as comédias sobre sexo – mas muitas das estrelas eram as mesmas de antes. Um animalzinho velho pode aprender a fazer novos truques? Uma estrela da Old Hollywood consegue se adaptar aos temas da Nova Hollywood? Bem, se estas estrelas da Old Hollywood são Henry Fonda e Lucille Ball, eles com certeza conseguem.

The 1960s represented a new time in Hollywood. The censorship was waning, new themes were being explored – like the sex comedies – but many of the stars were the same as before. Can an old pet learn how to do a new trick? Can an Old Hollywood star adapt to the themes of New Hollywood? Well, if those Old Hollywood stars are Henry Fonda and Lucille Ball, they certainly can.
Frank Beardsley (Fonda) é viúvo e tem dez filhos – mas dois deles estão “emprestados” com seu irmão. Helen North (Ball) é viúva e tem oito filhos. Eles foram feitos um para o outro, certo? É nisto que passamos a acreditar quando eles se encontram em diversas ocasiões. Outro personagem que acredita que eles estão predestinados um ao outro é Darrell (Van Johnson), amigo de ambos. Frank é oficial da Marinha, Helen é enfermeira, mas as famílias enormes são o que os tornam um par perfeito.

Frank Beardsley (Fonda) is a widower and has ten children – but two of them are “on loan-out” with his brother. Helen North (Ball) is a widow and has eight children. They were made for each other, right? This is what we are led to believe when they bump into each other in several occasions. Another character that believes they are a perfect duo is Darrell (Van Johnson), a friend of both. Frank is a Navy officer, Helen is a nurse, but their huge families are what makes them a perfect fit.
Darrell é como um cupido. Isso significa que Van Johnson tem um papel secundário, e este é um de seus melhores papéis no cinema. Como protagonista ele nem sempre conseguiu me convencer, mas como coadjuvante – ou mesmo como cantor, porque ele fez sucesso com “The Music Man” no teatro em Londres – ele é ótimo. Na vida real, Helen e Frank tiveram um cupido diferente: quem os apresentou foi a irmã de Frank, que era freira.

Darrell is a matchmaker. This means that Van Johnson has a supporting role, and this is one of his best appearances on film. As a lead he doesn’t always convinced me, but as a sidekick – or even as a singer, because he was a hit on “The Music Man” in the London theater – he did.  The real Helen and Frank, though, had a different matchmaker: the person who present one to the other was Frank's sister, who was a nun.
Lucy é a melhor em cena. Ela é hilária em muitos momentos que demandam comédia física, como no bar irlandês, em que ela tem problemas com os cílios postiços e com o vestido, e no primeiro jantar com os filhos de Frank, que é o ponto alto da performance de Lucy. O grande conflito no filme é a aceitação por parte dos filhos de Beardsley de Helen como uma verdadeira mãe. Sim, alguns dos filhos dela reagem com rebeldia ao fato de Frank ser o “novo pai” deles, mas ao menos um deles, Phillip, fica muito feliz com a novidade.

Lucy is the best in the film. She is hilarious in many scenes that demand physical comedy, like in the Irish bar, where she has trouble with her fake eyelashes and her dress, and in the first dinner with Frank’s kids, which is the high point of her performance. The greatest conflict in the film is the Beardsley children accepting her as a true mother. Yes, some of the North children react badly to having Frank as their new father, but at least one of them, Phillip, is more than happy with the news.
Alguns outros filmes, e especialmente séries de TV, lidaram com a vida familiar nos anos 60. A família em “Já Fomos Tão Felizes” parece minúscula se comparada com a de “Os Seus, Os Meus, Os Nossos”. No filme de Doris Day e David Niven, há apenas quatro filhos, e o conflito deles é focada na readaptação após a mudança da cidade grande para o interior, onde uma vez mais a mãe de família pode sonhar com o estrelato nos palcos. Para Helen North, não há espaço para sonhar – ela só pode focar em assuntos práticos.

Some other movies, and especially TV shows, dealt with family life in the 1960s. The family in “Please, Don't Eat the Daisies” (1960) seems tiny when compared with the “Yours, Mine and Ours”. In the Doris Day / David Niven movie, there are only four kids, and their conflict is focused on readapting to life when moving from the big city to the countryside, where the mother can once again dream with stage stardom. For Helen North, there is no room for dreaming – she can only focus on practical issues.
Há piadas mais modernas em “Os Seus, Os Meus, Os Nossos”, algumas delas envolvendo duplo sentido, contraceptivos e a juventude louca por sexo. Mas não se engane: tudo isso pode funcionar e ser discutido no momento do namoro, mas a vida real e diária depois do casamento não é assim. Frank quer deixar o trabalho e ficar em casa com toda a família, algo que Helen não deixa que ele faça. Afinal, ficar em casa é uma atividade para mulheres, enquanto trabalhos intelectuais são para homens. Helen se sacrifica muito mais que Frank pela enorme família, embroa Frank tenha seus momentos emocionantes. No final, nada mudou no seio familiar. No final dos ano 60, nada havia mudado em Hollywood.

There are more “modern” jokes in “Yours, Mine and Ours”, some of them involving innuendo, contraception and sex-crazy youth. But don’t be fooled: all this mighty work and be discussed in the dating part, but the real, daily life of a married couple, is not like this. Frank wants to leave his work to stay home with the whole family, something Helen doesn’t let him do. After all, staying home is an activity for women, while intellectual jobs are for men. Helen sacrifices much more for her huge family, even though Frank has his emotional moments. At the end of the day, nothing has changed in the familiar scene. At the end of the 1960s, not much had changed in Hollywood.


This is my contribution to the Van Johnson blogathon, hosted by Michaela at Love Letters to Old Hollywood.
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